Existe um tipo particular de decepção que vem de ver uma organização em que você acreditava voltar pela mesma porta que acabou de abrir. No dia 12 de abril, a paiN Gaming anunciou a dissolução do seu roster de Dota 2 e o encerramento imediato de suas atividades na modalidade. A decisão veio apenas 70 dias depois do retorno da organização brasileira ao título, após seis anos de ausência, e deixa para trás uma série de perguntas sem resposta sobre o que o Dota sul-americano realmente precisa para sobreviver.
Para quem cresceu acompanhando a paiN no ecossistema do esports brasileiro, o impacto é outro. Esta é a organização que levou o Dota 2 à sua primeira representação brasileira em The International 2018, um momento que pareceu, à época, abrir uma porta de vez para toda a região. Ver a paiN retornar, montar um elenco promissor e desligar as luzes antes de completar sequer um ciclo completo de torneios não é apenas frustrante. É uma declaração sobre o estado do jogo na América do Sul, queira a paiN ou não.
Um Retorno Construído na Promessa, Desfeito pelo Caos
A volta da paiN à cena de Dota 2 foi anunciada em 2 de fevereiro, quando a organização contratou o stack Perú Rejects: Parker, DarkMago, Frank, Scofield e elmisho, com Vintage como técnico. O roster acabara de eliminar a HEROIC em qualificatórias consecutivas para a DreamLeague Season 28 e a ESL One Birmingham 2026, e fez isso com convicção suficiente para gerar otimismo real. Era um grupo de talentos sul-americanos consolidados sob a bandeira de uma das marcas mais reconhecidas do Brasil. No papel, parecia exatamente o tipo de parceria que a região precisava.
Esse otimismo durou cerca de duas semanas.
No segundo dia da fase de grupos da DreamLeague Season 28, o carry David “Parker” Nicho Flores foi suspenso. Relatos indicavam que ele foi flagrado dormindo durante drafts, mexendo no celular e mandando “GG” enquanto seus companheiros tentavam coordenar as disputas finais. Seu técnico, Vintage, confirmou que a suspensão se devia a problemas de atitude — um padrão que qualquer um familiarizado com a carreira de Parker poderia ter antecipado. Ele havia sido afastado da HEROIC no final de 2024 por razões praticamente idênticas.
Aliaksei “Smiling Knight” Svirydau foi convocado como substituto emergencial, e a paiN atravessou o restante da DreamLeague com as dificuldades esperadas. No próprio primeiro dia com o novo stand-in, a equipe não conseguiu se conectar ao servidor para a partida contra a OG — Smiling Knight foi o único jogador a aparecer no lobby, em razão de problemas de internet no bootcamp. A paiN recebeu derrota por W.O. no primeiro mapa antes de retornar para o segundo jogo. A equipe nunca encontrou seu ritmo no torneio.
Birmingham: Uma Faísca, Depois o Escuro
Para a ESL One Birmingham, a paiN substituiu Parker em caráter definitivo por Máximo “Wits” Orozco Alza, da Amaru Gaming. E, sejamos justos, o elenco mostrou lampejos. O empate de 1 a 1 contra a Xtreme Gaming na fase de grupos foi o tipo de resultado que te faz sentar na ponta da cadeira; Wits, com apenas 18 anos, jogou com uma confiança e precisão mecânica que sugeriam que a equipe poderia se estabilizar com tempo e estrutura.
Mas uma derrota por 2 a 0 para a Aurora Gaming no último dia da fase de grupos encerrou a campanha. A paiN terminou entre os times da lanterna em Birmingham, eliminada antes mesmo dos playoffs. Dentro de três semanas após essa saída, a organização encerrou o projeto.
No comunicado de despedida, a paiN citou “desafios estruturais” e a necessidade de garantir “a sustentabilidade do projeto para se manter no mais alto nível competitivo”. Traduzindo: as contas não fechavam. O investimento exigido para competir no Tier 1 do Dota 2 não se sustentava com o que o ecossistema regional era capaz de retornar. Uma extensa revisão interna, disse a organização, deixou claro que este capítulo precisava ser encerrado.
O Roster Que Nunca Teve a Chance de Ser
A lista completa de jogadores dispensados conta a história de um potencial desperdiçado:
| Jogador | Função | Nacionalidade |
| Wits | Carry | Peru |
| DarkMago | Mid | Peru |
| Frank | Offlane | Peru |
| Scofield | Support | Peru |
| elmisho | Hard Support | Peru |
Os membros da comissão técnica Vintage, Tristam e EdsonVera também foram dispensados. Todos esses jogadores agora enfrentam o mesmo problema de sempre: encontrar uma casa em uma região que não tem casas suficientes para oferecer.
DarkMago já passou por este ciclo antes. Ele integrou o roster da OG.LATAM contratado em abril de 2025, apenas para ser dispensado semanas depois, às vésperas dos classificatórios do TI. Scofield e Frank tiveram atuações individuais legítimas em Birmingham. Wits demonstrou ser uma evolução clara em relação a Parker no pouco tempo que teve. Nada disso importa agora. Todos são agentes livres em um mercado que trata jogadores sul-americanos como descartáveis.
O Problema Maior Que a paiN Não Conseguiu Resolver
Eis a verdade incômoda que a saída da paiN cristaliza: a cena de Dota 2 da América do Sul está em declínio estrutural desde a dissolução do Dota Pro Circuit em 2022, e nenhuma organização descobriu como reverter esse quadro.
A lista de organizações que tentaram e não conseguiram sustentar uma presença na região se parece com um cemitério. A Thunder Awaken se fragmentou após sua campanha no TI. A beastcoast se reformulou e acabou seguindo em frente. A M80 veio e foi. Evil Geniuses, Alliance LATAM, OG.LATAM — todas testaram as águas brevemente antes de concluir que a temperatura não estava certa. Agora a paiN se junta a essa lista, e talvez seja a adição mais dolorosa de todas, porque não se trata de um investidor externo colocando o pé com cautela. A paiN é daqui. Conhece a cultura, a torcida, os limites da infraestrutura. E mesmo ela concluiu que não era viável.
A HEROIC segue como única referência da região, tendo se classificado para o TI 2025 como representante exclusiva da América do Sul. Mas uma equipe não faz uma cena. Uma equipe é uma história de sobrevivência, não de crescimento. O talento existe; jogadores como Wisper, Scofield e DarkMago já provaram que conseguem competir em nível internacional. O que não existe é a estrutura econômica e organizacional para manter esse talento empregado, desenvolvido e competitivo ao longo de um ano inteiro.
O Que Vem a Seguir
A paiN Gaming continuará operando em Counter-Strike 2 e League of Legends, onde a infraestrutura do esports brasileiro é significativamente mais desenvolvida. O CBLOL tem contratos de transmissão, audiência estável e captação de patrocínios. O CS2 tem raízes profundas na cultura gamer brasileira há duas décadas. O Dota 2, por todo seu prestígio no cenário global, simplesmente não oferece retornos equivalentes nesta parte do mundo.
Para os cinco jogadores peruanos que agora buscam uma equipe, o caminho à frente é incerto. Alguns podem acabar em stacks mistos disputando qualificatórias abertas. Outros talvez tentem se juntar à HEROIC ou à Amaru Gaming caso apareçam vagas. Os mais talentosos podem considerar o que tantos fizeram antes deles: se mudar para jogar sob uma bandeira europeia ou da CIS, trocando a proximidade de casa pela proximidade das oportunidades.
The International 2026 está programado para 13 a 23 de agosto, em Xangai. A América do Sul provavelmente receberá uma, talvez duas vagas nas classificatórias. Qualquer equipe que represente a região carregará o peso das esperanças competitivas de um continente inteiro, assim como a HEROIC fez no ano passado. É um fardo enorme para qualquer time, quanto mais para um que pode ser montado a partir dos fragmentos dispersos de rosters que deixaram de existir.
A postagem de despedida da paiN foi escrita em português, como essas coisas costumam ser. “Hoje a paiN se despede de mais um capítulo na história do DotA 2.” A expressão “mais um” é o que fica. Mais um capítulo. Não é a primeira despedida, nem será a última. Apenas mais uma. Há algo profundamente sul-americano nessa resiliência disfarçada de resignação — a capacidade de absorver a perda e enquadrá-la como continuidade. Já estivemos aqui antes. Provavelmente estaremos de novo.
A questão é se ainda haverá alguém assistindo quando o próximo capítulo começar.