HEROIC encerrou sua participação no Dota 2 em 4 de maio, e a reação imediata da comunidade foi previsível: mais uma organização vai embora, mais uma rodada de tweets cobrando que a Valve “conserte a cena”. A pergunta mais interessante é justamente a que ninguém parece querer responder. Como uma equipe termina em 5º-6º lugar no The International, vence uma LAN Tier 1, chega consistentemente ao playoff em 2026 e ainda assim não consegue fechar as contas?
A resposta revela mais sobre a arquitetura econômica do Dota 2 do que qualquer postagem da Valve jamais revelará.
Dois Anos de Experimento Bem-Sucedido em Todo Indicador, Exceto Um
A HEROIC entrou no Dota 2 em janeiro de 2024 com um roster sul-americano formado por talentos regionais consagrados: K1, Scofield, KJ, Davai Lama e 4nalog, com kaffs no comando técnico. A trajetória parece um manual de como construir uma divisão competitiva do zero. Já na primeira temporada, a equipe se classificava regularmente para LANs internacionais. Em dez meses, venceram a PGL Wallachia Season 2, tornando-se o primeiro time sul-americano na história do Dota 2 a erguer um troféu Tier 1. O 3-1 sobre o Team Falcons em outubro de 2024 deveria marcar o início de um novo capítulo para toda a região.
A segunda temporada ampliou ainda mais essa narrativa. As mudanças de roster trouxeram o promissor e volátil Parker, o retorno de Wisper para a mid e, por fim, a chegada de TaiLung, um prodígio peruano que atingiu 11.000 MMR aos 14 anos jogando com 180 de ping a partir de Lima. No TI 2025 em Hamburgo, o time estava no auge. O 5º-6º lugar igualou o melhor resultado já obtido por uma equipe sul-americana no The International, alcançado pelo Thunder Awaken no TI 2022. Em determinado momento do torneio, Yuma liderava a média de kills. A vitória no lower bracket sobre o Tundra Esports (2-0) incluiu um 2v4 que ficou para a história, mantendo as esperanças da equipe por mais uma série. O total de prêmios acumulados ao longo de dois anos chegou a aproximadamente US$ 1,4 milhão.
Nada disso foi suficiente.
O Problema de Comercialização Que Nem um Top 8 Resolve
Quando o Chief Gaming Officer Robin Nymann disse que o Dota 2 é “um jogo difícil de comercializar”, não estava se desculpando. Estava descrevendo uma realidade estrutural que toda organização de médio porte da cena enfrenta.
Basta observar como a receita circula no cenário competitivo do Dota 2. O prize money é uma das fontes, e a HEROIC conquistou sua parcela, mas as premiações encolheram a uma fração do pico histórico. The International 2021 chegou a US$ 40 milhões. O TI 2025 fechou em torno de US$ 2,88 milhões. Uma queda de 93% em quatro anos. A fatia do primeiro lugar no TI 2025 superou US$ 1,2 milhão para o Team Falcons. O 5º-6º lugar da HEROIC rendeu aproximadamente US$ 144.000. Para uma organização que paga salários de jogadores, comissão técnica, uma gaming house em Fortaleza, passagens para LANs internacionais na Europa e na Ásia e toda a estrutura administrativa, esse valor cobria talvez dois meses de despesas operacionais.
Patrocínio e merchandise são os outros grandes canais de receita, e é aqui que a estrutura do Dota 2 falha com as organizações que não estão no topo absoluto. O jogo não tem liga franqueada. Não há exposição garantida em transmissões, nenhuma integração padronizada de patrocínios entre torneios, nenhuma estrutura de temporada confiável que permita às marcas planejarem compromissos de longo prazo. Organizadoras terceirizadas como ESL, PGL e BLAST comandam o calendário competitivo, cada uma com seus próprios acordos de transmissão e modelos comerciais. Uma organização como a HEROIC compete nesse cenário fragmentado sem o poder de negociação nem a base de fãs para exigir tarifas de patrocínio mais elevadas.
O contraste com o que a HEROIC extrai de sua divisão de CS2 é revelador: um sistema de Majors bem definido, rankings da HLTV com implicações comerciais diretas e receita de stickers nos Majors criam fontes de renda previsíveis que justificam o investimento. A organização norueguesa compete no Counter-Strike desde 2016 e acumulou mais de US$ 4,2 milhões em prêmios nesse título. Os US$ 1,4 milhão conquistados pela divisão de Dota 2 em dois anos, com uma fração do alcance de audiência, não tinham como competir por recursos internos.
O Fator SA: Construir da Periferia Custa Mais Caro
A geografia agrava o problema financeiro. Times sul-americanos de Dota 2 arcam com despesas que seus concorrentes europeus e chineses simplesmente não têm. As LANs internacionais são realizadas quase exclusivamente na Europa, no Oriente Médio ou na Ásia. Cada participação em torneio exige passagens intercontinentais para cinco jogadores, um técnico e um gerente. A HEROIC transferiu jogadores para uma gaming house no Brasil, o que gerou custos próprios sem eliminar a carga de deslocamentos.
O problema de latência acrescenta outra camada de dificuldade. Times sul-americanos treinam e se classificam em servidores onde 50-80ms de ping para US East é considerado normal. TaiLung chegou ao Top 28 europeu no ranking de partidas ranqueadas jogando do Peru com 180 de ping. Essa estatística é frequentemente citada como prova do seu talento bruto, e de fato é. Mas também ilustra a disparidade de infraestrutura que as organizações sul-americanas precisam superar para se manter competitivas. Qualifiers online para eventos internacionais são disputados sob condições que times europeus e da CIS jamais precisam considerar.
O alcance da HEROIC na América do Sul estava crescendo. A produção de conteúdo incluía vlogs em português e espanhol do TI, entrevistas com jogadores e ações de engajamento que construíram um vínculo genuíno com a torcida regional. Kaffs chegou a falar sobre a intenção de fazer “algo diferente, algo que nunca foi feito antes na América do Sul” na abordagem da organização. A base de fãs estava lá. Os resultados competitivos estavam lá. A receita não.
A Debandada Não É Aleatória
A HEROIC é a mais recente de uma sequência com um padrão claro. Evil Geniuses, TSM e beastcoast deixaram o Dota 2 nos últimos anos. A Wildcard dissolveu seu roster em outubro de 2025 após chegar ao The International, repetindo a trajetória de sucesso competitivo seguido de retirada organizacional que a HEROIC agora espelha. Um relatório recente de um insider da indústria afirmou que ao menos uma grande organização a mais deixará o Dota 2 nos próximos dois meses, com novas saídas possíveis após o TI 2026.
As organizações que partem não são aquelas que nunca competiram de verdade. São justamente as que competiram, que chegaram ao nível em que os custos escalam junto com o nível da oposição, e então descobriram que a receita não acompanha esse crescimento. Os salários dos jogadores no nível Tier 1 ficam na faixa de US$ 15.000-25.000 por mês, segundo diversas fontes do setor. Para um roster de cinco jogadores mais comissão técnica, isso representa uma folha mensal próxima de seis dígitos antes de contabilizar viagens, hospedagem e despesas operacionais. Uma organização precisa de top 4 consistentes em eventos com premiação acima de US$ 1 milhão, receita sólida de patrocínios ou ambos para que as contas fechem. A HEROIC não teve nenhum dos dois de forma consistente.
O que torna essa situação estrutural, e não apenas anedótica, é o abismo entre o topo e o restante. O Team Falcons, com investimento saudita, opera com uma reserva financeira que a maioria das organizações não pode nem almejar. O Tundra Esports venceu quatro eventos consecutivos do BLAST Slam e lidera o ranking EPT. O Team Spirit, atual campeão do EWC, tem uma marca consolidada e uma fanbase robusta na CIS. Abaixo dessa camada, a economia fica precária rapidamente. O calendário de torneios de 2026 oferece premiações expressivas nos eventos da ESL, PGL e BLAST, mas a distribuição é altamente concentrada no topo. Terminar em 7º-8º lugar num torneio milionário normalmente rende entre US$ 25.000 e US$ 40.000, mal o suficiente para cobrir os custos de participação.
Para Onde o ex-HEROIC Vai Agora?
A decisão do roster de continuar junto como ex-HEROIC é ao mesmo tempo desafiadora e frágil. Eles entraram na DreamLeague Season 29 nesta semana, seu primeiro torneio sem patrocínio organizacional, e enfrentam um desafio imediato: Wisper está fora por motivos pessoais, substituído por Batyuk, um stand-in do Leste Europeu, uma configuração incomum para um stack sul-americano. Nos primeiros resultados, derrota para o Team Falcons (0-2) e vitória sobre o GamerLegion na fase de grupos.
O objetivo declarado da equipe, comunicado por kaffs, é se classificar e obter bons resultados na Esports World Cup 2026 (julho, US$ 2 milhões) e no The International 2026 (agosto, Xangai). O caminho é estreito. O ex-HEROIC ocupa aproximadamente a 18ª posição no ranking ESL Pro Tour com 300 pontos, bem fora dos 12 slots de convite direto para o EWC. A DreamLeague S29 distribui 28.300 pontos EPT entre 16 times, então uma boa campanha nos playoffs pode mudar a trajetória deles. Para o TI, a rota pelo qualifier regional da América do Sul continua sendo o caminho mais realista.
A perspectiva de encontrar uma nova organização antes desses eventos depende de fatores de mercado que os próprios jogadores não controlam. O número de organizações dispostas a investir no Dota 2, especialmente na região sul-americana, encolheu consideravelmente. A PlayTime, patrocinadora anteriormente focada no SEA, contratou o roster do ex-South America Rejects para a DreamLeague S29, mostrando que ainda há quem veja valor na cena. Se esse interesse se estende a um roster com as expectativas salariais e de infraestrutura da HEROIC é outra questão.
TaiLung, agora com 17 anos, segue sendo o ativo mais valorizado do roster. Sua trajetória de estrela das ranked peruanas até o jogador que atingiu 17.000 MMR em março de 2026, tornando-se o primeiro sul-americano a alcançar essa marca, é o tipo de narrativa que desperta o interesse das organizações. O contra-argumento é que as organizações hoje prestam menos atenção às narrativas do Dota 2 do que aos seus balanços financeiros.
O Que a Saída da HEROIC Revela Sobre 2026
A leitura direta: o ecossistema competitivo do Dota 2, fora do seu pico absoluto, funciona com uma lógica econômica de outra era. A estrutura de torneios pressupõe que as organizações investirão no prejuízo para ter a chance de vencer no TI, mas a premiação do TI caiu mais de 90% em relação ao seu ponto máximo. O circuito de terceiros pressupõe que a receita de patrocínios preencherá essa lacuna, mas a infraestrutura comercial do jogo não gera valor suficiente para que organizações de médio porte consigam capturar.
A HEROIC fez tudo que o ecossistema pede aos times. Desenvolveu talentos, construiu uma identidade regional, entregou resultados no mais alto nível e investiu em engajamento com a comunidade. O ecossistema não lhes ofereceu retorno viável.
Os cinco jogadores do ex-HEROIC sabem disso tudo. Estão jogando a DreamLeague S29 agora, caçando pontos EPT que talvez os levem ao EWC, caçando vagas de classificação que talvez os levem a Xangai, perseguindo um futuro que sua antiga organização decidiu não valer o investimento. Essa busca vai definir o próximo capítulo do Dota 2 sul-americano, e o resultado vai revelar se mérito competitivo ainda se traduz em sobrevivência organizacional em 2026.